Que se dane quem concorda!

Um brinde a quem discordar

Tive o prazer de trabalhar com um líder e amigo queridíssimo que me chamava de praticante do discordianismo. Eu olhava pra ele e respondia brincando: discordo!

Ele não estava errado. Eu gosto de questionar. Às vezes eu internamente concordo com a pessoa, mas exponho uma opinião contrária propositalmente.

Não por prazer ou vício, sim porque esse mesmo amigo, sempre dizia que nosso papel enquanto planejadores e estrategistas era trazer a equipe de volta à realidade sempre que um projeto ficasse conceitual demais.

Aprendi com esse mesmo amigo a importância de blindar projetos das opiniões próprias e explorar os buracos de um planejamento até sentir segurança naquela ideia.

Essa frase é linda

Fazer o máximo de perguntas, estressar uma ideia, e talvez até ir contra por um tempo, faz com que o dono ou dona da ideia pense em mais de uma abordagem para aquele plano, e o mesmo vale quando eu sou o dono da ideia, eu quero que as pessoas observem, critiquem tecnicamente, identifiquem falhas.

Uma vez feito isso, eu sei onde está um possível ponto fraco na ideia da pessoa e trabalho junto com ela na possível solução. Como sei que muitas vezes outra pessoa vai fazer o mesmo comigo.

Boas ideias não são frágeis como uma peça em vidro ou rígidas como o aço.

A boa ideia é um elemento em fibra de carbono, ou titânio. Ela é leve, mas resiste aos testes de stress, tem certa flexibilidade e vai durar por muito tempo, faça chuva ou faça sol. 

Logo, a criação e desenvolvimento de uma grande ideia vai acontecer normalmente em ambientes que permitam testar as qualidades dela. 

É claro que qualquer pessoa pode ter insights seja lá onde for, mas o ambiente traz clareza, incentivo, exemplos e até mesmo a possibilidade de estressar o conceito.

Logo, qual o tipo de ambiente que favorece ideias boas, fortes e flexíveis (parece até um estúdio de pilates, né)?

Aprendi inicialmente com Murilo Gun que divergências levam a convergências. Resumidamente, é necessário reunir visões diferentes com objetivos similares para que uma solução cubra o maior volume de falhas e então funcione. 

Na última semana pude participar de um evento em Bogotá na posição não apenas de palestrante, mas também mediador em hotseats com empresas da Colômbia, Espanha, México e Brasil.

Uma sessão de hotseat consiste em você expor um problema/desafio a uma sala de pessoas com ramos de atuação ou experiências minimamente similares às suas. Você vai usar 3 a 5 minutos para detalhar a situação, talvez revelar ideias que já teve, e então qualquer pessoa da sala pode pegar o microfone e dizer como ela já resolveu uma situação similar ou resolveria algo na mesma escala. 

Coisas mágicas acontecem. A especialista em nutrição surge com um exemplo de como o professor de inglês pode resolver um problema de equipes. O empresário de finanças ajuda um terapeuta a identificar onde o consultório dele perde clientes. E por aí em diante.

Nós fazemos sessões de hotseat em grupos de empresários seguindo a mesma razão pela qual eu leio autores com os quais não concordo:

Bolhas têm tamanho limitado e vieses muito similares. 

Eu quero ser exposto às ideias que pessoas muito parecidas comigo não têm porque já estamos com pensamento muito alinhado.

Quero ouvir opiniões que talvez sejam contrárias às minhas, mas que possivelmente funcionem. Eu quero ver como alguém que é diferente de mim em posicionamento político, gênero, realidade social e crenças pensa, não quero que alguém me diga como essa pessoa pensa. 

É bom ficar incomodado pelas razões certas.

Na última edição comentei sobre ter encontrado mais uma vez o Professor Cortella, mas desta vez destaco a frase dita por outro Cortella, o Pedro:

Bolhas não educam. Bolhas escravizam.

Pedro Cortella

Eu particularmente gosto de ler Jordan Peterson. Não concordo com visões dele sobre inúmeras questões sociais, no entanto, me ajuda a compreender muito a visão de pessoas com viés mais cristão ou conservador e como elas encaram alguns dilemas.

Também sigo influenciadores religiosos que não concordo. Mas assistir a esses influenciadores me gera repertório de áreas que nunca tive a vivência, pois quanto mais eu convivo com quem é igual a mim, menos autêntico eu me torno, mais enviesado fica meu pensamento crítico. É preciso uma divergência saudável para não ser refém de uma bolha.

Tudo pode ser aproveitado sob a ótica criativa.

Portanto, procure consumir materiais de quem você nunca imaginou consumir! Você é uma pessoa progressista? Leia textos de um conservador. É conservador? Leia materiais progressistas. Crie um filtro mental que separa autores de suas obras. Posso dar outros 80 exemplos de bolhas e seus opostos. 

Saiba como o outro lado constrói um argumento em vez de esperar que terceiros o façam por você, então aí sim sua ideia se torna algo muito mais próximo do que faz com que projetos funcionem bem!

Sua melhor criação não vai nascer no conforto da mesa.

Vai nascer na rua. Nos eventos, nas conversas, na observação de ambientes fora do comum.

As melhores criações muito provavelmente surgirão depois de serem expostas a quem não pensa como você.

Você e eu não temos culpa de procurarmos o conforto dos pares. Somos criaturas tribais e nossa espécie evoluiu até hoje por conta disso. Então porque diabos correr o risco de fugir da tribo por umas horas e ser devorado por um leão na savana?

Porque, a não ser que você esteja lendo diretamente de algum ponto muito específico do planeta, você não vai sofrer um ataque de leões.

Herdamos comportamentos de sobrevivência que às vezes podem ser ignorados. 

Respondendo objetivamente a pergunta feita lá em cima, o tipo de ambiente que favorece boas ideias é aquele no qual pessoas se permitem discordar sem medo e sem ataques pessoais, e ao mesmo tempo estão dispostas a resolverem o mesmo problema.

Parece utópico, mas vivo em ambientes assim o ano todo.

Na hora mais crítica, não quero que concordem com tudo. Quero que encontrem algo não visto por mim, então a partir disso eu sei que tenho algo mais forte a ser entregue.

Um brinde aos discordianistas. E se você não concorda, obrigado!

Aproveitando o papo sobre visões diferentes, quero deixar aqui um TED espetacular sobre mentes autistas e suas contribuições:

Forte abraço!