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Já mexeu num caldeirão de merda?
Mulher pode ser CEO?
A internet é um ambiente maravilhoso.
Permite que em pleno 2024 você veja alguém publicando ideias de 90 anos atrás como se tradição fosse sinônimo de eficiência ou eficácia.
Estou falando, é claro, de um story publicado na última semana pelo então CEO do G4, Tallis Gomes.
Assim como o Norvana uniu todas as tribos, o story do Tallis foi tão complicado que ele conseguiu ao mesmo tempo irritar pessoas conservadoras e progressistas. É o Norvana do empreendedorismo (vide imagem abaixo).

Não vou entrar na questão óbvia do volume de absurdos contidos em um simples story, mas em algo que leva não só o influenciador em questão, como inúmeras outras pessoas a se afundarem numa areia movediça de assuntos controversos sem a menor necessidade.
O termo é shit stirring. Ou, "revirar a merda".
Você com certeza já viu um tanto de gente especialista em revirar merda no Linkedin, no Instagram, até no finado Twitter. Um bom shit-stirrer faz questão de encostar em temas ardilosos com um suposto viés polêmico, porque polêmica engaja.
Polêmica engaja desde muito antes de existir esse seu medo de ser abordado por tiktokers durante suas compras ou das caixinhas de Instagram cheias de verdades difíceis. Ratinho, Alborghetti, Sônia Abrão, João Kleber, Enéas, todo mundo ganhava dinheiro e exposição com polêmicas!
Inclusive tive a chance de estudar posicionamento de artistas pop ainda nos meus tempos de publicidade, e aprendi que quase todo ou toda pop-star em algum momento vai assumir o manto de rebelde, de anti-herói.
Artistas, jornalistas e influencers fazem isso para dividir e conquistar. Quanto mais assumem uma postura controversa, mais repelem quem já tinha uma pulga atrás da orelha, e mais força ganham entre pessoas com pensamento similar.
E principalmente no caso de artistas, a fase polêmica vem como um acelerador de mudança de carreira. Existe a transição entre a pessoa de estilo juvenil, rebelde, e então romântica.
Miley Cyrus, Justin Bieber, Katy Perry, Justin Timberlake, Nelly Furtado e outras dezenas de figuras pop precisaram passar por fases controversas (seja de comportamento ou nas letras) para dividir e conquistar.
Eu juro que as próximas linhas têm caráter puramente técnico.
Pense que um belo dia a Sandy disse em entrevista ser possível prazer no sexo anal.
Isso foi no mesmo ano em que ela fez propagandas para a Devassa. Do ponto de vista prático, são dois fatos zero polêmicos, é a Sandy sendo uma pessoa adulta comum! No entanto, uma artista que sempre foi relacionada à infância do público e precisa mostrar que não é mais assim.
Sendo proposital ou não, acredito que a Sandy usou de temas relativamente polêmicos com maestria, e tudo o que ela disse era somente sobre ela.
A maior parte dos artistas que fazem isso, sabe que é uma fase.
O que me traz de volta às polêmicas de rede social.
Conheço um tanto de gente que usa de posicionamento polêmico para atrair e/ou repelir. Nunca fui contra a estratégia, contanto que a pessoa não se perca entre o jogo da audiência e acreditar ser alguém intocável.
E sendo honesto, sou a favor de posicionamentos fortes, mas como diria Kat Barcelos: é uma mão no teclado e outra na consciência.
Mas acontece com maior frequência do que se espera: pessoas até então admiráveis vão esticando a corda do que é ou não um comportamento aceitável. Às vezes a corda estica até quase romper, a pessoa pede desculpas ou some por um tempo, e volta. Repete.
Até que uma hora a corda se rompe.
Lembrei de uma comédia que eu amo, chamada Trovão Tropical. Esse filme tem mais camadas que uma lasanha! Robert Downey Jr. interpreta aqui um ator branco de olhos azuis que por sua vez faz o papel de um soldado negro (os roteiristas pensaram nisso como uma crítica à indústria), e em certa cena ele solta a seguinte frase:

"You went full retard, man. Never go full retard."
Como sabemos que os tempos mudaram, bora substituir "retard" por "idiota":
"Você foi completamente idiota. Nunca seja completamente idiota".
Quanto mais você se posiciona de forma determinista, mais alcança pessoas, mais sente a adrenalina da recompensa, mais gente repete seu nome, até se tornar refém de ideias que talvez nem sejam suas.
Um belo dia, suas palavras são polêmicas apenas pelo prazer do caos gerado. Você mexeu tanto no caldeirão de merda que se habitou ao cheiro.
Então a balança pende e a fama por suas opiniões fica maior que o reconhecimento pelo trabalho realizado, sendo que provavelmente sua obra cause muito mais resultados positivos na sociedade que seus posicionamentos deterministas. Bizarro né?
Nada disso é sobre cancelamento. É sobre tornar o trabalho de uma vida irrelevante por vontade de lacrar.
Por acaso encontrei novamente com o professor Cortella há dois dias.
Cortella tem 50 anos de magistrado, 52 livros publicados, soma 20 milhões de seguidores nas redes, lota eventos para 2 mil pessoas em toda cidade que vai…
Sem ser polêmico. Tudo o que ele faz é ensinar e escutar.
O que eu quero dizer com tudo isso?
Você pode mostrar seu trabalho sem se tornar refém de posicionamentos ardilosos, isso é escolha.
Você pode vender muito sua arte ou serviço com ou sem polêmica.
Não pense que só porque é comum ver gente de posicionamento forte ter muito resultado que este é o único caminho possível, mas caso queira seguir na mesma trilha, é só ter cuidado para não se perder.
Particularmente eu tenho preferido seguir menos pessoas polêmicas e mais conteudistas.
Pois como diria Epíteto: Se suas escolhas forem belas, você também o será.