Van Gogh não usava óculos

Pelo menos não em seus últimos anos

Oi perrengue chique

A edição de hoje está sendo escrita enquanto passo horas preso na Alemanha por uma série de problemas com trens. A gente passa a vida escutando sobre a engenharia alemã e descobre na prática que ela também tem seus dias ruins. E por falar em dias ruins, ontem pensei muito em Van Gogh.

“Nossa mas que culto ele, viajando pela Europa e pensando em Van Gogh”. Na verdade, pensei nele porque visitei o Museu Van Gogh em Amsterdam e isso traz todo tipo de reflexão, desde questões de criatividade até saúde mental e sorte.

Na lojinha do museu eles vendem óculos temáticos de obras do artista. Mas a gente sabe que Van Gogh não tinha como usar óculos, afinal ele arrancou a orelha pra mandar de mimo a uma cremosa. Como que usa óculos sem uma das orelhas pra apoiar?

O camarada começou a focar na arte aos 28 anos, morreu com 37 e, apesar de conviver com muitos artistas famosos da época como Paul Gauguin, nunca obteve sucesso verdadeiro. Só depois de morto, mas aí não adianta muita coisa né. É tipo quando você tá no banho e lembra da frase que podia ter usado numa discussão de dias atrás, só que pior.

Como revisitar o passado e imaginar o futuro?

Mas o que me pegou tanto quanto as pinturas foi a escrita. O bicho escrevia muito para o irmão (foram mais de 800 cartas) e também trocava muitas cartas com amigos, trocando inclusive rascunhos de projetos. Beleza, a escrita era tipo o único jeito de se comunicar naquela época, mas veja isso aqui:

"Dessa vez é apenas meu quarto, mas a cor precisa fazer o trabalho aqui… Olhar para o quadro deveria descansar a mente, ou melhor, a imaginação."

É uma anotação dizendo como seria aquela que viria a ser uma de suas obras mais conhecidas pelo mundo.

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Existem diversos motivos pelos quais você e eu ficamos mais burros a cada dia. Um deles é a nossa escrita caindo por terra. Não tô falando de escrever à mão assim como na Roma antiga, mas de simplesmente escrever o que pensa. Tipo manter um diário, mandar um e-mail, redigir um texto que demanda idas e vindas às diversas gavetas do seu cérebro.

David Allen, criador do método GTD de produtividade diz que confiar somente nos próprios pensamentos para organizar seu dia é um risco. Afinal, sua mente é muito dependente de estímulos e pode ser surpreendida por qualquer acontecimento fora do esperado. Há quem diga que escrever traz um grande benefício à memória. 

Eu sinto que a escrita é uma arma perfeita. 

A escrita pode ser feita em silêncio ou no caos. Ela pode ser praticada no seu próprio idioma, ou utilizada em uma nova língua e, com isso, desenvolver diversas frentes de comunicação ao mesmo tempo.

As câmeras e microfones são injustos com gente tímida, a escrita é inclusiva.

E acima de tudo, quanto mais você escreve, mais você evolui sua habilidade em oratória. Seu vocabulário cresce, você descobre novas formas de expressar ideias, revira memórias e organiza palavras sem gaguejar, sentir vergonha ou travar a língua.

Sim, muita gente está ficando mais burra. E um dos jeitos de não entrar nessa generalização é usar sua habilidade de usar teclas para além do Whatsapp. Numa página em branco.

Abra um documento, escreva sobre como foi seu dia. Como você gostaria que tivesse sido. Invente uma história com algum fato recente. 

Faça isso algumas vezes por semana e veja como você é sim uma pessoa criativa.

Abraço!

P.S: Em breve volto com os vídeos e podcast. Tô tirando um tempo para viajar e escrever. E viajar na escrita :)