Por que o vídeo do Nikolas funcionou?

E como a retórica está presente em tudo

Já perdi as contas de quantas vezes fiz algo mesmo sabendo que aquilo me daria grandes dores de cabeça. Uma piada infame, um comentário sem filtro, até mesmo um date ou rolo que a gente já sabe onde vai dar. 

O que me lembra daquele meme: “Coragem é saber que algo vai doer e ainda assim seguir em frente. Idiotice também, por isso que a vida é difícil”. A edição de hoje é uma dessas coisas.

Mas por dois ótimos motivos, que eu já conto!

Durante a última semana, as notícias envolvendo o monitoramento do Pix estavam no ápice, quando surgiu um vídeo até bem simples, feito pelo deputado Nikolas Ferreira. No vídeo, ele faz algumas afirmações envolvendo o governo, cita promessas passadas, mas, principalmente, tenta encurralar o governo num beco sem saída através da pura retórica.

O vídeo funcionou. De forma bizarra, só a publicação original teve mais de 320 milhões de views até ontem. Isso mesmo. Milhões. 

E funcionou em inúmeros níveis: fez o governo recuar de uma medida, expandiu o alcance do deputado mesmo entre a oposição e fez até mesmo parte da base aliada assumir que o governo falhou nas comunicações. 

Alguns ataques de narrativa são como aquele cara escroto da escola que sempre te zoou. Se você bate, ele diz que você apelou. Se você chora, demonstra fraqueza. Se ignora, talvez passe.

Vídeos polêmicos são feitos para te derrubar de cima do muro. Não importa para qual lado e não importam os fatos, só a ideia.

“Bora doido! Vem pra esse lado do muro!”

Dito isso, por que o vídeo funcionou?

Esse vídeo chegou onde chegou por um conjunto de táticas de retórica utilizadas em apenas 4 minutos. Vou abordar as principais aqui pelos motivos que prometi revelar:

  1. Quanto mais você entende sobre narrativas e retóricas, mais pode utilizar no seu dia-a-dia como bem entender (espero que de forma boa);

  2. Quanto mais você entende sobre narrativas e retóricas, mais fácil fica identificar e se defender de possíveis manipulações.

Tanto o texto de hoje quanto a análise completa que coloquei no podcast Além das Boas Ideias é uma análise do discurso, não da informação. Não entrarei em mérito do que é ou não falso, apenas de como manobrar palavras a fim de persuadir alguém.

O que fez Nikolas Ferreira ser visto mais de 300 milhões de vezes?

1. Velhas táticas de ataque:

Em livros como o clássico de Schopenhauer “Como vencer um debate mesmo sem ter razão” ou em “As 48 leis de poder”, de Robert Greene, o leitor descobre dezenas de maneiras de contorcer a opinião de um público a favor dele. Uma infinidade de políticos se vale de todas essas táticas, ultimamente vimos Pablo Marçal ser quase a versão ambulante de ambos os livros. 

2. Invalidação da teoria pela prática:

O deputado sugere que a tese por trás da medida do governo não funciona na prática. Ele cria um cenário hipotético, mas visualmente real, mostrando uma placa de comércio que só aceita dinheiro vivo, e isso ao mesmo tem ajuda a transformar o discurso em espetáculo, junto com outras imagens.

3. Ataques ad hominem:

Ele faz ataques diretos ao presidente e seus aliados, tirando o crédito do oponente atacando a pessoa, não o argumento.

Em várias partes do vídeo, rolam ataques diretos ao presidente e figuras de aliados. Um dos casos: “A prova disso é que o Lula aumentou os gastos do cartão da presidência e colocou sigilo para os gastos dele. Mas quer tirar o sigilo bancário de você, cidadão comum e empreendedor. Sigilo para ele, vigilância para você”.

Nessa hora, ele tenta tirar o crédito do oponente atacando a pessoa, em vez de focar no argumento. Isso é uma coisa muito comum nas figuras políticas. Elas sempre vão atrás do indivíduo.

4. O governo como inimigo comum:

Nikolas equilibra ataques a indivíduos com ataques ao "grande vilão" que é o governo. Afinal, quem não gosta de ter um inimigo pra culpar, né? Aqui o “inimigo comum” é o Sistema. Só que há exemplos de impactos tangíveis causados por um inimigo intangível. Ele consegue materializar o inimigo ao detalhar cenários como o do segundo tópico (invalidar a teoria pela prática).

Pedi pra I.A elaborar o conceito visual de inimigo comum sendo confrontado, deu nisso aí

5. Custo da defesa:

Custa muito mais tempo e esforço se defender do que atacar. O deputado provoca o oponente, sabendo que se ele morder a isca, vai perder credibilidade.

6. Desfoque e brechas:

Ele muda o foco da discussão pra problemas gerais do país, trazendo questões tangíveis que são irrefutáveis, independente da posição política.

Em um trecho ele diz: “Se fosse pra pagar imposto alto, igual na Suíça, mas ter o serviço da Suíça de saúde, educação e transporte, ok. Mas o brasileiro paga imposto alto pra continuar tendo o serviço de saúde, educação e transporte do Brasil”. Ele desfoca a atenção da pessoa, ele muda o foco da discussão pra problemas gerais do país.

Eu poderia gastar horas nisso aqui… Mas tenho uma proposta melhor.

Quer saber mais sobre como cada um desses elementos funciona? Gravei um episódio do Além das Boas Ideias fazendo a desconstrução e análise completa!

A verdade é que o deputado fez seu dever de casa.

Uma regra bem básica em relações públicas e comunicação em geral é: defender dá mais trabalho que atacar. Quando alguém faz um movimento de ataque, essa pessoa quase que automaticamente domina o assunto e controla o resultado. Toda tentativa de contra-ataque pode parecer um ato de desespero ou despreparo.

A deputada Erika Hilton, que também costuma ser muito certeira em narrativas, mordeu a isca. Fez um vídeo resposta que utiliza do mesmo estilo visual, mas para que ele funcione, antes a pessoa precisa assistir ao Nicolas. Assim, ele ganha audiência.

Reforçando aqui, eu não quero entrar nos méritos de quais informações foram passadas. No entanto, eu quero muito ler o que você pensou de tudo isso e principalmente do conteúdo de hoje.

É só me responder aqui! Eu leio todos os e-mails.

Até a próxima semana!