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Pagode japonês com AC/DC
Não parece, mas faz sentido
Cultura é um negócio curioso
No último final de semana, minha namorada e eu pegamos um carro e fomos visitar sua cidade natal, no interior de SP. Já comentei em alguma edição aqui o fato dela ser de família nipônica.
Na viagem ela começou a rir e disse: “hoje tem o aniversário da minha amiga fulana e você vai ver o tanto de japonês por metro quadrado! Ah, o tema do aniversário é brasilidades, então deve ter um sertanejo e muito churrasco com comidinhas japonesas”.
Ali estava eu a poucas horas de um pratão de alcatra com bifum e muita observação.
Highway to Chiclete com Banana
Na mesa, 15 descendentes de japoneses e um de nordestinos (oi!). Eu fui criado vendo churrascos caóticos, com gente fumante de Derby xingando o filho, tio bêbado dando vexame, briga, mas também todo mundo em algum momento rebolando ao som de É o Tchan, chorando com SPC, berrando, essas coisinhas comuns.
Já ali eu me divertia observando como essa galera tava aproveitando muito bem o rolê sem grandes movimentos ou sem muito álcool (muitos asiáticos possuem menor resistência alcoólica) e botando as fofocas em dia. Nessa hora a trilha já tinha ido do pagode para o axé e eu reparava no baterista usando camiseta do AC/DC naquela festa japonesa com temática brasilidades.
Eu gosto de estar em ambientes diferentes.
Nos dias que antecederam a festinha no interior eu ministrei um treinamento intensivo para uma turma de médicos altamente qualificados, além de acompanhar um pouco da rotina deles em estudos avançados no Hospital Albert Einstein.
Mais um contraste bem maluco, já que passei boa parte da vida sem nunca ter tido amigos médicos ou acesso a ambientes tão absurdos quanto o Einstein, onde você não sabe se está no hospital ou no shopping.
Posso dizer que se gosto de ambientes diferentes, os últimos 6 dias foram um prato cheio (também de Dorayaki, mochi, hot roll…) e me serviram muito repertório.
Tá, mas onde isso vai dar?
Imagine que você viveu o a vida toda dentro de um quarto com suas quatro paredes. Enquanto você estiver ali dentro, sua vida é completamente previsível, a ponto de você ter até a capacidade de adivinhar o futuro!
Afinal, em um espaço limitado, você conhece exatamente qual a reação de cada ação, qual o resultado de cada esforço. Um belo dia alguém derruba uma das paredes, agora você ficou com a pulga atrás da orelha.
O que tem do outro lado? Se eu simplesmente olho pelo buraco onde existia a parede, o que verei? O que acontece ao atravessar o buraco e ver um novo quarto com paredes diferentes?
A exposição melhora a percepção
Quando eu vou numa festa na qual 95% das pessoas foram criadas sob um ótica completamente distinta do padrão que sou habituado, descubro como é o “padrão” de diversão daquela turma. Quando dou aula para um grupo de médicos que acredita não ter criatividade ou repertório de comunicação, preciso voltar dois passos e repensar minha forma de ensinar.
Em dado momento do treinamento na última semana, entreguei um papel A3 e blocos de post-it a cada médico. Prometi que em menos de 30 minutos eles teriam chegado por conta própria a um método básico de criatividade ilimitada e teriam ao menos 10 temas distintos de conteúdo e, claramente, rolou um ceticismo.
Eis a imagem ao final do exercício:

De pediatra a médico do esporte, todo mundo se divertiu
Ainda escolhi algumas vítimas e mostrei como gravar sem ter vergonha da câmera. Ao final do dia, um dos médicos foi até a frente da turma, comentou que estava inseguro com as novas necessidades da atuação profissional (aparecer mais do que as gerações anteriores), mas que ali encontrou um meio de fazê-lo sem perder a identidade.
Mais uma vez, o contraste de experiências muda o jogo
Se você tem sentido o peso da mesmice, se nada parece novo ou se não há muita esperança em fazer coisas que te deem resultado diferente… Pois bem, uma das melhores saídas pra isso é justamente mudar as variáveis iniciais que alteram todo o resultado final.
Quanto mais ambientes diferentes, mais seu repertório fica vivo. À mesma medida que aqueles médicos aprenderam algo comigo, eu aprendi muito ao simplesmente planejar 8 horas de conteúdo para um público fora do meu ambiente. Estou desde quinta repensando todo exemplo técnico que dou!
A riqueza de repertório pode vir tanto de uma experiência aprofundada como essa, quanto de festas com gente que viveu uma cultura familiar e local muito distinta daquele padrão que te moldou.
Quanto mais repertório de experiências, mais fácil fica você criar mais, resolver problemas e, principalmente, não perder o gás de seguir em frente.
Explore novos ambientes e mantenha seu arquivo sempre aberto!