A vida é assustadoramente rápida! Se você me acompanha aqui há um ano ou mais, talvez tenha percebido que um ano atrás o tom da conversa era meio pesado (mais do que a headline de hoje).
Em maio do último ano, quando eu estava começando a compreender a perda de uma grande amiga, meu pai sofreu uma queda na casa dele, despencou da escada. Naquela época ele já estava numa luta de aproximadamente 13 ou 14 anos contra o Parkinson.
Nunca vou esquecer da ligação que recebi enquanto almoçava com amigos. Minha mãe aos prantos, desesperada, mas logo aliviada porque vizinhos e pedreiros de uma obra próxima correram ao resgate.
Idosos são frágeis! A queda desencadeou uma sequência de que foi de fraturas a problemas respiratórios. Por 4 semanas ele ficou na UTI. Por 4 semanas, nossa vida foi encontrar um equilíbrio improvável entre a esperança e a realidade. Eis que exatos 12 meses atrás, por volta das 8:30 am do dia 18 de julho, meu pai descansou.
Lembro que em um dos raros momentos em que ele abriu os olhos, fiz uma piada sobre a cirurgia que eu estava prestes a realizar, ele sorriu.
Durante o velório, agradeci pela presença de todos e falei o que talvez poucas pessoas imaginassem: ele queria morrer há muito tempo. O Parkinson destrói a vida de alguém, e ele não aguentava mais ser alguém cuja vida se resumia a sentir dor.
Um ano atrás eu vivia o mês mais desafiador da minha vida. Nunca mais pude ver de perto o rosto de quem me criou.
Meu pai e meu sobrinho claramente se dando bem ali por 2005!
Avancemos no tempo.
De lá pra cá, a vida tem sido ótima. Tomei coragem de pedir a Vanessa em namoro, fiz minha ortognatica, pedi demissão, abri minha empresa, rodei a Europa, tenho avaliado propostas de negócio, criado como nunca, essas coisas todas maravilhosas MAS.
Existe um negócio que pouca gente diz sobre luto: o luto aluga um cômodo permanente na sua vida. E você pode enxergar esse aluguel como um inquilino desagradável que nem paga tanto quanto poderia… Ou pode enxergar esse aluguel como a chance de ter boas conversas com seu passado.
Enquanto profissional criativo, é muito perigoso se render à tristeza. Porque eu sou apenas criativo, não sou um gênio. A Adele e Taylor Swift sim são gênias, transformam pé na bunda em recorde de vendas! Nós, seres humanos comuns, normalmente só ficamos meio capengas e melancólicos.
Em uma entrevista, o ator Andrew Garfield (Homem Aranha) fala sobre a perda da mãe e sobre amar ter conversas sobre a mãe dele, porque o luto se tornou parte de quem ele é, é um buraco que jamais será coberto, mas não precisa ser uma dor. Pode ser um espaço de lembrança.
Também foi mais ou menos isso que meu amigo Alan Marques me disse um ano atrás: saudade sim, tristeza nunca.
Mas onde eu quero chegar?
Caso você venha a passar por situações assim, não espere que elas simplesmente passem. Mas saiba que se você tiver um olhar de transformar dor em memória, a vida fica mais leve. Hoje em dia eu sorrio todas as vezes em que penso no meu pai ou na Dani. Tenho muita alegria em ter vivido a honra de alugar um pouco do tempo deles na Terra!
Perder duas pessoas amadas em 45 dias te ajuda a recalibrar prioridades enquanto filho, amigo, irmão, namorado, colega.
O luto recalibra a vida. Em 2024 realizei dois objetivos materiais que, do meu ponto de vista, eram o símbolo do “estou dando certo”: comprei um Opala placa preta, carro que eu sonhava em ter desde a época da foto acima, e um relógio de marca.
Hoje em dia são duas coisas que eu não dou a menor importância e que só não vendi ainda por falta de tempo. Uma vez que você enxerga ao vivo que a única coisa a ser levada é um tanto de flor e uma maquiagem que disfarça a cor do seu rosto pálido, essas efemeridades perdem valor.
São pequenas medalhas e nada mais. Conquista, hoje, é passar tempo fazendo coisas novas e rindo com quem amo.
Eu acho que ter aprendido a olhar para esse cômodo alugado como uma chance de relembrar grandes momentos foi uma das inúmeras peças em um enorme quebra-cabeças chamado vida.
Luto não passa, o espaço que ele aluga na sua vida não vai ficar livre, mas pode revelar belas peças no museu da sua vida.
Aprecie essas peças e não se entregue à tristeza.

