Fazer conteúdo estragou minha vida

Já devo ter feito palestras e aulas em mais de 200 eventos. Também gravei dezenas de podcasts, na minha vida passada como blogueiro, publicava 3 a 7 textos por dia.

E isso tudo acabou com a minha vida para sempre.

Porque o ato de falar em público é moleza. Mas para ser lembrado, você precisa estragar sua vida.

Para ser lembrado é preciso criar conexões, e criar conexões dá trabalho.

Quando há o intuito criar conexões reais através da comunicação você não tem saída a não ser se aprofundar na realidade de quem precisa te ouvir. 

Então um belo dia você não está só comunicando.

Está também descobrindo que médicos bem sucedidos financeiramente estão inconformados com as horas trabalhadas porque não conseguem tempo livre com a família. Logo, essa dor se torna um exemplo na sua aula sobre conteúdo online para profissionais da saúde.

Você “estraga” sua vida porque percebe que não dá mais pra falar de forma leviana.

Ao pesquisar sobre a pessoa a ser entrevistada no podcast, descobre que ela perdeu um ente querido em deslizamento de terra e apesar disso, não desistiu de nada. Ao dar uma aula para pequenos empresários de Salvador, conhece a história de gente que está pensando em como usar a internet para atrair clientes até sua pastelaria. E muda todo o conteúdo enquanto apresenta.

Comunicar é fácil.

Criar conexões dá trabalho.

Montar algumas dezenas de apresentações diferentes me obrigou a descobrir que pessoas com empresas já estabelecidas ainda se sentem inseguras em relação a um plano e às vezes só precisam de uma confirmação para executar o que pode salvar o faturamento do ano. 

Também me fez aprender que há gente por aí ganhando a vida com o ensino de dança folclórica libanesa e que alguém ouviu sua dica num podcast e cresceu em vendas com aquilo.

Qualquer idiota sobe num palco ou liga uma câmera e comunica o que sabe.

Mas criar conexões dá um puta trabalho.

Dá trabalho criar uma apresentação de última hora e ouvir de um padeiro alemão a ideia de produto que ele teve após sua aula às 9 da noite de segunda-feira. 

Essas coisas dão trabalho e estragam minha vida porque dá pra entender que o conteúdo não pode mais ser meia-boca, é preciso um compromisso sério com o tempo de quem está te ouvindo.

Nenhum vídeo ou texto pode ser inútil depois que você percebe tudo isso, de repente bate a consciência de que o seu conhecimento é valioso para alguém, logo, seu conteúdo é um veículo que carrega esclarecimento, tranquilidade ou soluções. 

Logo a criação deixa de ser uma atividade e passa a ser uma ferramenta. 

E veja bem: Eu amo a criação despretensiosa. 

Não acho que a gente precise acordar pensando em mudar o mundo ou salvar vidas, tem dias que eu acordo e não sei nem se quero tomar café ou suco. Só que falar de algo só por falar ou porque sei sobre aquilo é uma prática horrível depois de vivenciar tanta experiência enriquecedora.

Isso estragou minha vida porque antes era tudo divertido e sem compromisso, agora é divertido e trabalhoso. 

Eu era consistente em entregar trabalhos meia-boca até precisar colocar o meu na reta. Até começar a subir em palco e botar a cara em vídeo.

Se não está dando trabalho, é porque não há esforço. E o público percebe quando não rola aquele esforço básico, igual a pessoa desinteressada no date.

Então minha lógica de criação passou a ser: vou me divertir, só que isso precisa virar uma boa memória para alguém.

Cansa, mas vale cada minuto de planejamento, e essa é minha recomendação para você que pensa em ir para os palcos ou para as redes: 

Divirta-se, mas foque em quem vai consumir. Se você não fizer isso, vai ser fácil cair no limbo dos profissionais meia-boca.