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Napoleão, os orgasmos e a retrospectiva do Spotify
O que 2.800 horas de vibradores ligados revelam?

A gente tem dado em casa, no trabalho, até nas férias.
A gente tem dado a qualquer hora do dia e até em outras línguas. Inclusive muito da minha carreira existe por eu ter dado sempre que foi preciso, sem sequer pensar muito.
O que eu quero dizer é que se você gosta de números, vai analisar dados e aprender com eles sempre que puder. São muitos dados por aí, e os últimos que tive acesso já fizeram muita gente ficar de perna bamba.
Imagino que você não viva em uma caverna.
Logo, deve ter visto todo mundo que usa Spotify compartilhando seus resumos anuais de músicas, podcasts, playlists e artistas de nomes difíceis. Eu mesmo já propus que novas versões surgissem.

E meu desejo foi atendido, mas de forma completamente inesperada:
Uma grande marca de vibradores fez a Retrospectiva do Prazer 2023. Tipo aquela do Spotify, mas sobre orgasmos femininos! Em linhas gerais, os vibradores da Lioness contam com sensores que captam movimentos na região da pélvis e identificam quando a usuária está atingindo o tal do orgasmo.
Como eles mesmos dizem, "We love data, you love masturbating. Putting the two together just made sense."
A partir disso, a empresa montou uma série de gráficos bem interessantes e surpreendentes, vem comigo:

Na média, as usuárias dos vibradores Lioness levaram 4m19s de masturbação até atingirem seus orgasmos, que duraram cerca de 24s. Menos de 5% das sessões de "terapia" contaram com múltiplos orgasmos. Durante o orgasmo, a força exercida pela vagina é suficiente para esmagar um Cheetos.
Inclusive, "Esmagar o Cheetos" pode virar uma expressão pra alguém.
Não obtive muitas surpresas com os dias e horários (as médias diárias são similares, já o pico de uso é sempre às 21h). No entanto, as análises mostram que nem sempre a hora do rush é a melhor para os orgasmos. O resultado desejado costuma ocorrer mais pelo meio da madrugada e em alguns momentos da manhã.

Finalmente acharam um lado bom da insônia!
Pode parecer loucura, mas o gráfico acima tem certa relação com Napoleão Bonaparte.
Te conto a razão!
Hoje somos capazes de exibir gráficos assim por causa de um engenheiro francês chamado Charles Joseph Minard.
Esse camarada viveu 200 anos atrás e seu hobby era criar mapas informativos. Os trabalhos iniciais foram mais orientados ao trânsito das cidades, até que em um belo dia, Charlinho colocou em um mapa o resumo da batalha perdida por Napoleão na invasão da Rússia. E ficou ótimo!

São 6 tipos de dados representados em 2 dimensões: Distância, número de soldados, temperatura, latitude, longitude, direção e ainda localização por data.
Minard mostrou que números poderiam ser histórias visuais, entretenimento e aprendizado.
De lá pra cá, o mundo do Data Visualization e Data Storytelling mudou um bocado. Mas algumas coisas até que permanecem iguais, mudaram menos que a rentabilidade do FGTS e o trânsito de São Paulo. Essas coisas são os princípios para você chamar a atenção para os dados que importam e passar sua mensagem adiante.
Isso serve para quem empreende, é líder de equipe, quer um aumento, vai apresentar relatório, vender uma ideia… É para quem respira.
Se você simplesmente decide jogar gráficos e linhas numa tela, começa a descrever os fatos e ler os slides, todo mundo vai querer morrer. Alguns até literalmente.
Já se a sua apresentação de resultados segue princípios básicos, muita gente vai lembrar de você pra sempre. Portanto…
Comunique o que será dito, mas não precisa ser literal
Escrevi outro dia sobre a (então) melhor palestra que fiz em 2023. Ela foi um ensaio para a melhor. Eu queria falar sobre fidelização de clientes e aumento de LTV, então foquei em dizer que as pessoas veriam como praticar alquimia e transformar bronze em ouro. Clientes novos em fidelizados. Nem sempre dá pra ser lúdico, mas vale o risco. Metáforas e provocações costumam atrair bem;
Diga o objetivo da apresentação logo no começo
A dica anterior era sobre o conteúdo, não sobre o resultado que você deseja ao final daquela fala. Por mais que pareça óbvio, emende o passo 1 com a palavra "porque…" e adicione o objetivo. Olhares diferentes vão surgir, você terá mais atenção do público e ainda saberá na prática o efeito de um "porque" como explicado por Robert Cialdini;
Demonstre credibilidade e confiança
Não é sobre dizer o que estudou, seu cargo ou função, é sobre deixar claro que você analisou cada ponto abordado, que já viu outros cenários antes, e que certas precauções foram tomadas (mostrar que houve cuidado, curadoria, validação). É melhor que dar carteiradas, passa a impressão de autoridade e facilita o entendimento da mensagem! Tenha seus argumentos sempre a postos;
Sequestre as pessoas
Tá, não as pessoas, mas a atenção delas, e logo no começo! Isso aqui demanda prática, é chato de dominar, só que de repente vira aquela habilidade tranquila!
O jeito mais simples e eficaz é entender qual o tipo de informação que faz sua audiência dar aquela inclinada ou levantar a sobrancelha. Quando apresento para empreendedores, já trago logo temáticas de lucro, longo prazo, otimização. Se vou falar com influencers, abordo os riscos de algoritmos e dependência das agências, comparo com facilidades do meu mercado. É prática.
Você vai ter que sempre buscar o que as pessoas querem ouvir;
Ninguém liga pra análise
As pessoas querem recomendações. Qualquer ferramenta de I.A ou estudante consegue montar uma análise simples e direta. O jogo dos números é ganho nas recomendações, no repertório criado, na coragem de dizer o que precisa ser feito.
Na maior parte das vezes que alguém está vendo indicadores e gráficos voando pela tela, essa pessoa quer que você a ajude em uma decisão. Que você fale o que pensa sobre aquilo que apresentou.
É aí que aquele lance de credibilidade joga forte, e por isso é tão importante gastar tempo planejando os passos 1 e 2!
Por aqui são mais de 10 anos fazendo isso, estudando métricas e retórica, entendendo como apresentar dados. Em 2022 ainda tive a sorte de entrar para a turma de Strategic Data Storytelling da Universidade de Chicago e finalmente entendi a relevância dos passos citados acima.
Toda semana eu tenho conversas com alguém que precisa trabalhar melhor como expor trabalhos, pesquisas e campanhas. Quase sempre entramos no mesmo ponto: não importa o volume de informações, importa a relevância delas e como são apresentadas.
Domine esses dois fatores e suas apresentações serão mais eficazes que o vibrador Lioness em 30% de potência.