Mamar na teta da vaca e fazer foguete dar ré

Tem tudo a ver, acredite

Certa vez um bom amigo me soltou a pérola inesquecível:

— Cleiton, a gente só não é rico porque pensa demais.

Eu prefiro acreditar que não sou rico por dois motivos completamente distintos, sendo o primeiro, nascer em uma família pobre, e, o segundo, me chamar Cleiton. 

Sério, duvido que você conheça um milionário chamado Cleiton. É sempre um nome elegante, acompanhado por sobrenome de origem estrangeira. 

Mas entendi o ponto dele!

Isso é reforçado por Malcolm Gladwell, autor do livro Outliers. Malcolm diz (inclusive nesse podcast aqui) que parte do sucesso de uma grande inovação é a pessoa por trás daquilo ser extremamente iludida!

Como assim?

Segundo o jornalista, inovadores e seus pares compartilham de uma visão que, de certa forma, ignora o senso comum e as probabilidades.

No caminho para provar que suas ideias podem dar certo, tais pessoas fazem diversas descobertas marcantes e, se o timing ajudar, chegam ao seu objetivo inovador. Mas só conseguem tal feito por abrirem mão da probabilidade e abraçarem o risco.

Coincidentemente, escutei há poucos dias em algum podcast que conforme evoluímos, encontramos novas leis da física. Logo, as antigas ou perdem certo sentido, ou ganham complementos. 

Vamos pegar o exemplo de uma figura que eu não gosto muito enquanto indivíduo mas admiro enquanto inovador: Elon Musk. 

Há não muitos anos, a ideia de percorrer mais do que 50, 60 km em um veículo 100% era loucura. O rapazinho por acaso tinha dois fatores muito a favor dele: a insistência e os recursos para perseguir sua tese até o final. Contratou as melhores mentes do mundo, revolucionou a indústria automobilística e agora até a de foguetes: uma missão com a Space X custa, em média, metade que um lançamento convencional.

Não idolatro o indivíduo nem concordo com suas opiniões, porém admiro o resultado: provou que foguete dá ré sim.

Mas utilizar o destruidor do Twitter como exemplo é fácil. O cara tem dinheiro infinito.

Outra coisa que parecia loucura alguns séculos atrás era colocar 22 marmanjos disputando a posse de uma bola de couro.

Loucura maior ainda foi alguém voltar para o vilarejo com um bigode meio branco e dizer:

— Galera, tomei aquela parada que sai das tetas da vaca. Cês não vão acreditar…

Ahn???

Pervertido? Gênio? Faminto? Esse indivíduo aí se aventurou onde logicamente não deveria e hoje você tem mais tipos de queijo do que é capaz de experimentar.

Eu mesmo de vez em quando aposto mais na teimosia que na lógica pura.

Enquanto escrevo a edição de hoje, olho com um misto de sentimento para uma bisnaga de Gelol. Isso porque no último domingo, me arrisquei outra vez num BRM (Brevet Randonneur Mondiaux), que consiste em pedalar 200 km em até 13h30m.

Pela lógica, eu não deveria ter feito a prova!

Quando conquistei meu primeiro brevet em abril, estava bem treinado, com a saúde impecável, motivado e acompanhado por dois amigos. Na bike, ter alguém junto é fundamental para revezar o esforço contra o vento: isso reduz seu esforço físico em 30%.

Completei a prova de abril em 13 horas totais, com 11 horas de pedal.

Voltamos a outubro. Estou em um período de 5 meses pedalando 60% menos que na janela anterior. Passei 12 dias doente após voltar da Colômbia, tive um encontro desagradável com o banheiro na madrugada anterior à prova e…

Melhorei meu tempo total em 2 horas, quebrei recordes pessoais de tempo nos 100 km, terminei a prova com o corpo menos dolorido que antes e sem ter apoio de outros colegas durante os 203 km. 

Você sabia que Florianópolis tem um bairro chamado Saco Grande?

Pela lógica, eu não iria. Por teimosia eu fui, e me dei melhor que antes.

Perseguir uma ideia, seja ela inovadora, trivial ou para sanar um desejo pessoal é complicado. Até certo ponto é necessário defender hipóteses e raciocínio lógico. Mas a linha entre a lógica e o medo de fracassar é quase invisível!

Logo, como saber que você não está fazendo uma aposta merda?

Confie no seu repertório. Seu track record, verbalize a ideia maluca com gente que te conhece bem. 

Eu já sabia que uma prova de endurance é mais mental que física a partir da 5a hora, portanto foquei em fazer 5 horas sem ultrapassar o ritmo moderado e salvar energia para o momento mais difícil. Meu objetivo foi ter mais tranquilidade no começo e intensificar na segunda metade.

Do quilômetro 110 em diante, mudaria tanto o ritmo quanto a nutrição para deixar o corpo no automático.  

De um lado, o Brevet (medalha pequena), de outro, a medalha do clube organizador

Minha nutricionista havia adiantado que a resistência física não vai embora tão rapidamente. Todos meus dados passados nos aplicativos de treino me deixavam com parâmetros de comparação para cada janela de 10 quilômetros. Era simplesmente controlar o batimento cardíaco, respiração, nutrição e hidratação.

Até a metade eu olhava muito tanto GPS quanto dados de velocidade e esforço. A partir da metade, foquei mais no GPS e confiei na percepção de esforço, isso foi uma doideira! Podia jurar que meus primeiros 100km foram mais fracos que em abril, na verdade foram 34 minutos mais rápidos.

Repertório é bom, mas combinar com um arquivo real é ainda melhor! Nosso cérebro vive pregando peças através do viés de confirmação. Ter dados de quando você correu riscos similares, aplicou ideias similares, auxilia na tomada de decisão.

Seguindo sua ideia, qual o melhor e o pior cenário?

Como você agiria em cada cenário?

Não seguindo sua ideia, o que de melhor ou pior pode acontecer?

Você fica em paz com isso?

Nos vemos semana que vem!