- A Fábrica das Boas Ideias
- Posts
- "Eu já teria enloquecido"
"Eu já teria enloquecido"
E o que te garante que eu não enlouqueci?
Semana passada dormi em casa depois de 2 dias em BH. Antes havia ficado 3 dias em Porto Alegre e, antes disso estava em férias. Pouco antes das férias, foram 3 dias em Brasília, outros 3 em Curitiba, uma semana em BH. Em novembro tenho pelo menos 4 viagens já planejadas.
Mais de metade do mês fora de São Paulo no mesmo mês que devo participar duas provas de ciclismo bem desafiadoras por aqui.
Quando olho o calendário, são 100 a 140 dias de viagens durante o ano, tudo compromisso de trabalho!
Detalhe que, nesses dias fora, a rotina de escritório também não para de acontecer.
Essa é a razão de inúmeras vezes alguém me dizer aquela frase do título. Normalmente eu respondo com "como você sabe se eu não enlouqueci? 👀 ".
Cansa, mas eu gosto e me vejo seguindo nisso enquanto estiver saudável.
Acho que gostar é uma das chaves para não coringar.
Vi meu pai acordar todos os dias às 3:50am para dirigir um caminhão de feira, trabalhar na barraca de frutas e ainda carregar tudo de volta até o CEAGESP. Ele gostava daquele caos, mas não se rendia totalmente. Todo dia ele cuidava e ainda cuida de uma hortinha em casa.
Quando eu empreendia, lá em 2021, vi que estava com 124kg e comecei a estabelecer certos rituais incanceláveis comigo mesmo. Passar pelo menos 40 minutos do dia fazendo algo que seja bom para minha mente ou corpo (infelizmente comer pudim não entra aqui), parar durante a tarde e fazer meu café, entre outros pequenos rituais.
Claro que sei dos meus privilégios para manter esses hábitos: não tenho filhos, meu prédio tem academia, moro a menos de 1h do trabalho, em SP isso é ouro.
Só que uma coisa leva à outra e, quanto mais fiel aos novos hábitos, mais a vida começou a ficar, de certa forma, suave. Pesquisadores como a Dra. Anna Lembke exploram isso melhor.

Numa das entrevistas que fizemos no Hotmart Cast, é citado que equilíbrio “não existe”. A rotina é na verdade um pêndulo, tem seus dias de intensidade e de calmaria.
No meu caso, isso foi uma chave para não sofrer mais com estafa, esgotamento, burnout, tremilique e tudo mais: ser fiel a uma rotina controlável. Observando de perto muita gente que admiro, percebi o mesmo.
O HC (Henrique Carvalho, não Hospital das Clínicas) sempre repete: hábitos difíceis, vida fácil. Vale a pena ler a news dele, inclusive. E não é só ele! Certa vez, em uma conversa com um médico sobre as dificuldades do sono, ouvi que a rotina é um dos melhores remédios contra a ansiedade e a sensação de falta de controle.
Usando a comparação mais clichê possível, os hábitos são como juros compostos, quanto mais tempo investido, maior o retorno exponencial.
Alguns compromissos “incanceláveis” comigo mesmo, além dos citados acima, envolvem ficar pelo menos 2h por semana em cima da bike, cozinhar minha própria comida o máximo de vezes possível, estudar um assunto que nunca tive acesso antes, zoar quem toma banho gelado…
A rotina não é uma ditadura, é mais como um relacionamento não-monogâmico. De vez em quando, ela será quebrada, e está tudo bem. Talvez você tenha muitos bloqueios criativos porque não tem uma rotina mínima. O mesmo pode acontecer com a falta de produtividade e de foco.
"Mas se eu parar o trabalho de tarde ou não começar logo cedo, vou ter mais trabalho pra fazer depois."
E se você não parar, também. E quando tudo estourar, vai achar que a culpa é só do trabalho, e não da vida mais desregrada do que um volante de Kombi.
Sempre haverá mais trabalho a ser feito. Então, por que não fazer uma manutenção preventiva, como em um carro, em vez de esperar quebrar?
Acredito que muitos amigos e conhecidos falam sobre esse tipo de assunto comigo porque não tenho nenhum problema em falar sobre a época em que "buguei" completamente na vida.
Isso não é um texto motivacional ou sobre como fugir do burnout (já tive esse diagnóstico lá pra 2017 e nunca mais). Nada mais é que um relato rápido sobre como alguém com rotina profissional pesada lida com o dia-a-dia sem sofrer: não é buscando equilíbrio ou vivendo apenas pelo trabalho.
É sendo o mais fiel possível à parte controlável da rotina e respeitando os próprios limites.