Coragem ou estupidez? Uma linha difícil de enxergar

E que eu cruzei ontem mais uma vez

Estou escrevendo a edição de hoje com algumas dores. Na coxa, em um dos braços, em alguns ralados na perna. 

A coisa foi toda muito rápida.

Eram 4:50 da manhã de domingo.

Num segundo, eu estava pedalando; no seguinte, estava no chão. Levantei e dei de cara com uma das rodas tão torta que era impossível participar da prova para a qual eu estava indo. Antes mesmo de o sol nascer, eu já tinha sido derrubado, sem perceber que os dois caras na calçada levaram meu celular na mesma hora que me derrubaram.

Sem celular, impedido de participar da corrida, bike quebrada. Um prejuízo daqueles bem chatos.

Alguém pode até dizer que sou azarado. Afinal, é o terceiro celular roubado em três anos. Mas, na real, eu vejo isso como parte do preço a ser pago pelos riscos que corro. Já volto nisso.

Não faz muitos dias que passei por BH e realizei um sonho peculiar...

Na verdade, o sonho foi celebrar o casamento de duas das melhores pessoas do mundo, a Gabi e o Sérgio! Sempre tive esse desejo maluco de conduzir uma cerimônia, e a sorte está do meu lado com amigos doidos que fazem esses convites.

O meu discurso tinha a intenção de explorar as várias facetas de uma construção em conjunto. Entre sei lá quantos rascunhos, cheguei a um trecho que ficou mais ou menos assim:

"Há quem diga que casamento é difícil, que dá trabalho, que é sofrível… 

Mas quais as coisas boas da vida que não foram difíceis? Quais conquistas não envolvem pelo menos um pouco de esforço? Um preço a ser pago?

Talvez até mais que uma prova de amor, o casamento seja a soma de inúmeras ações de coragem (olha aí). Desde a coragem do primeiro beijo, à coragem de viverem juntos, de criarem um laço eterno através de um filho lindo. 

Então casar não é sacrificar ou sofrer. 

É você, que tem uma vida com desafios, problemas e mil preocupações, perceber em outra pessoa um fardo similar e dizer: eu quero te ajudar a carregar esses fardos da vida enquanto a gente existir. Além das minhas dores e apertos, quero estar presente para que você não sofra a sós com suas dores e apertos. E no meio do caminho a gente se diverte, vê onde a vida vai levar.

Tem que ter muita coragem."

A grande questão sobre a coragem é que ela muitas vezes vai levar a um resultado doloroso, e com a idiotice é a mesma coisa! Logo, a linha entre ser corajoso e idiota é bem difícil de enxergar (ontem fui mais idiota que corajoso).

Ela é tão difícil que existe um prêmio chamado Darwin Awards, dedicado a pessoas que morrem fazendo coisas estúpidas achando que são corajosas.

Mas seja na coragem ou na idiotice, você vai ter que pagar o preço.

Quando eu decido que vai ser uma boa ideia ir de bike e não de uber para um evento, parte do preço a ser pago é a probabilidade de um incidente. Quando a Gabi me chama para celebrar um casamento, parte do preço é o risco das piadas com o histórico de solteira dela (não sei se fui corajoso ou idiota mas valeu a pena).

Limites são empíricos. 

Muita gente não faz ideia do limite de um trabalho ou arte até que ele seja atingido, aí a cagada de um educa o restante. Pensa em quanta gente morreu até descobrir qual o esquema certo do Tacacá no Tucupi (um prato que pode, ou não, ser venenoso). Depois que os limites são atingidos você ganha um referencial de "opa, melhor não fazer isso aqui".

Decidi falar sobre preços, limites e coragem porque trabalhar com criação é explorar tudo isso aí e porque coincidentemente tive a mesma conversa em um jantar com estrategistas de marketing lá em Brasília.

Me dá uma tremedeira absurda ver gente muito boa escrevendo uns títulos meia-bomba, se prendendo a estruturas clássicas de conteúdo que já rodam no automático, sem testar ideias que talvez provoquem, (mas por favor, que não ofendam) partes da audiência.

Escrever um anúncio determinista, colocar ênfase não nos argumentos de sempre, mas na descoberta do cliente tem um poder absurdo.

O Will Couto, por exemplo, é uma pessoa que acho sensacional! Divertido, ético, faz a comunicação muito próxima da realidade das seguidoras e está em um nicho muito concorrido, o fitness feminino. Mas tem um detalhe: O Will não fala de perder peso ou ficar magra. A premissa do trabalho dele é a mulher trocar gordura por massa magra e se tornar uma cascuda.

Com qual objetivo? Se sentir bonita pelada.

Veja bem, ele corre sérios riscos de respostas e sentimentos das seguidoras aí.

Só que ele não está dizendo que uma pessoa com gordura é feia, não fala de números de quilos ou magreza absurda. Ele é enfático na questão de que uma aluna pode sentir-se bem ao atingir um objetivo traçado por ela mesma, e todos os dias mostra casos de mulheres com vidas normais fazendo seus antes e depois.

Ele inclusive não diz que alguém precisa ser magro ou magra, o foco é no que a pessoa deseja.

Ao mesmo tempo, o Will mostra que seguir fichas prontas de academia não funciona no longo prazo, que burpee é perda de tempo e excesso de abdominais também. Ele está disposto a pagar o preço da ousadia inclusive entre profissionais de educação física.

Mas dá certo. Os números dele e o sentimento do público são bem positivos.

Nós atuamos em um mercado onde 97% de quem vê uma oferta não vai comprar. A gente já entra no jogo quase com saldo negativo, tem que brigar pelo resultado de conversão maior que os 3%, não dá pra não ousar. É preciso correr riscos para ganhar um pouco mais da atenção desses 97%, e mesmo que eles não comprem, se a mensagem for marcante, vai dar bom no futuro.

É nessas horas que, desde a carreira nas agências de publicidade, percebo que muitos profissionais e clientes travam. Querem grandes resultados, mas não estão dispostos a aceitar o preço de uma aposta.

A criatividade anda num caminho oposto à covardia.

Quanto menos você aceita que algumas reações e situações são parte do preço a ser pago, mais difícil fica se destacar na sua atuação criativa.

Mas como eu comentei lá em cima, a linha entre coragem e idiotice é quase invisível, vide meu caso de idiotice ontem. Então como evitar as mesmas idiotices que eu?

A matriz abaixo costuma ser atribuída ao Dr. Ben Carson:

Nela, podemos ver os seguintes quadrantes que envolvem tomadas de decisão:

  • O melhor que pode acontecer se eu corro o risco

  • O pior que pode acontecer se eu corro o risco

  • O melhor que pode acontecer se eu não corro o risco

  • O pior que pode acontecer se eu não corro o risco

É uma das melhores formas que conheço de diferenciar coragem e estupidez! Com essa matriz em mãos, fica muito mais fácil criar consciência sobre o preço a ser pago e decidir se vai seguir em frente com uma ideia, ou não.

Eu devia ter usado isso ontem 🤡.