Como manter a criatividade em dias difíceis?

Assim como Ícaro caiu depois de seus melhores momentos, eu senti que após muitos meses vivendo em alta, estava em queda livre.

Sabe a lenda de Ícaro? Aquela do cara que para fugir de um labirinto, usou asas de cera. Como bom filho teimoso, Ícaro ignorou os conselhos do pai e voou perto demais do Sol. As asas derreteram.

Ploft. Caiu e virou patê.

Algo assim aconteceu comigo. Não literalmente, é claro. 

O problema da criatividade é ser subjetiva e traiçoeira.

Seu trabalho mais original pode ser o que teve piores resultados. Já aquele projeto mequetrefe que nem você acreditava, dá um tapa na sua cara e ainda ri.

Eu não gostei da primeira foto que vendi. Um dos meus textos de maior alcance foi um desabafo escrito na hora do almoço. A foto que virou capa de livro era um teste de lente:

Meu lançamento de maior resultado foi 90% escrito usando estruturas tradicionais.

E aí vem o grande desafio do criativo inconsistente: eliminar o fator "acaso" e entregar resultado tangível. Só que o acaso jamais será eliminado, assim como o Coyote nunca vai pegar o Papa-Léguas. Então você trabalha para ser menos influenciado pelo acaso.

Do meu ponto de vista, criatividade nada mais é que abordar as coisas de sempre, de uma nova forma. E o que eu não sabia era como isso vira a maldição do profissional de comunicação.

Todo mundo está sempre reinventando a roda. Ainda mais no marketing, que tem como diretriz, reinventar a roda e ainda provar que é melhor. 

Por nos compararmos constantemente, começamos a acreditar que algo está errado. Mudamos as ideias tão rápido que o público em si nem chega a se acostumar.

E com isso estamos o tempo todo criando, mas acreditando que não fazemos nada além do comum. 

Daí passamos a criar por ego, não pela necessidade ou missão de criar. Na criação orientada a ego, elaboramos inutilidades. 

Criar se torna um vício.

Entre novembro e dezembro de 2020 aconteceram alguns fatores interessantes. 

Primeiro eu decidi largar 100% dos meus projetos depois de perceber que passei bons meses fazendo escolhas erradas. 

Quando finalmente estava bem, estudando, tranquilo...Contraí Covid.

Por sorte, meu caso foi bem leve, com apenas uma sequela mais aguda: disfunção cognitiva. Nas primeiras semanas eu basicamente não conseguia formular um argumento mais complexo ou tomar uma decisão simples sem levar minutos. Em um dos dias, passei não sei quanto tempo olhando para a escova de dentes. Escrever uma headline levava horas.

Fiquei assim por 5 meses.

Só que a vida é rápida demais para lamentações (leia-se: as contas continuam chegando) e percebi que a tal da criatividade simplesmente picou a mula. Vazou. Entrou em algum metrô e me deixou pra trás com as crianças e o cachorro.

Na época eu era autônomo. Como que pagaria contas sem conseguir criar?

Assim como Ícaro caiu depois de seus melhores momentos, eu senti que após muitos meses vivendo em alta, estava em queda livre.

Dizem que músicos criam suas melhores obras após desilusões amorosas. Eu nem isso podia fazer.

Além de visitar neurologistas, psicólogos, psiquiatras e quase puxar um tarot, voltei aos fundamentos. Repensei todas as vezes que não conseguia criar, e cheguei a uma conclusão: a melhor forma de explorar a criatividade em dias difíceis é a mesma dos dias fáceis.

Olhar para as coisas com curiosidade e neutralidade. Estimular o cérebro.

Fazer perguntas óbvias para pessoas diferentes. Anotar pensamentos, dedicar momentos do dia a um lazer puro, sem preocupações.

O problema em dicas assim é elas serem abstratas. 

Portanto, o grande segredo acaba sendo uma reflexão: em seus piores dias, tenha a liberdade de aceitar que são dias ruins, mas também o compromisso de tentar agir como nos melhores dias.

Não tente forçar a barra em criar algo complexo. Faça pequenos exercícios para ir fisgando a criatividade aos poucos.

Criar depende muito mais de hábitos que fatos.

Este post foi inspirado no livro "Siga em Frente", de Austin Kleon. Uma abordagem completa sobre criatividade em dias difíceis. É perfeito!