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O que aprendi com meu pai aos 14 anos
E só entendi chegando aos 37
Meu pai não era um grande professor
Tem uma tirinha clássica de internet mostrando como cada espécie de animal cuida de suas crianças até elas estarem prontas. Quando chega nas aves, tem um passarinho jogando sua cria de cima do galho e dizendo “voa, carai!”.
De certa forma, esse era meu pai! Com todo o carinho que ele podia fornecer, claro.
Por exemplo, ele não quis me ensinar a dirigir, empurrou a tarefa ao meu irmão. Ele nunca gosto muito de ensinar. Tanto que quando meu véio partiu, foi um baita exercício mental lembrar dos aprendizados que ele me deixou. Aquela coisa clichê que acontece nessas situações tristes.
Hoje em dia sempre lembro dele com alegria, e por muitos meses tentei lembrar dos tais aprendizados. Eis que alguns dias atrás eu andava por uma feira de rua quando meu cérebro finalmente pegou uma das principais mensagens que guiou minha vida sem eu sequer perceber.
Quase dei um berro na hora.

O homem era um grande paradoxo
Meu pai foi caminhoneiro durante toda a vida.
Mas assim como quase todo pobre, ele não fazia uma coisa só! Por muito tempo, ele carregava as cargas de frutas de uma enorme barraca de feira, logo, se tornou feirante por osmose. Já que saía de casa às 3:50am para levar alguma toneladas de frutas, ficava ali pelas barracas também gritando, chamando a freguesia para comprar laranja, melancia, mexerica.
Quando eu tinha uns 14 anos ele me levou para trabalhar na barraca de feira pela primeira vez, eu fui a vergonha da profission, como diria Erick Jacquin. Não gritava, tinha vergonha de vender e de chamar a atenção.
Já meu pai seguia ali berrando, atraindo as pessoas, entregando as melhores frutas para uma provinha. Algo a favor dele era a voz extremamente alta e grave.
E justamente aí começava o paradoxo!
Veja bem, meu velho era muito introspectivo e introvertido. Falava pouco, não gostava muito de receber visitas, com exceção de gente muito querida. Ele falava pouco, não gostava de aparecer, de chamar atenção e de bens materiais.
Tanto que minha enorme herança é uma câmera digital que custou menos de mil reais!
Mas o que ele sempre entendeu, e eu nunca fui esperto o suficiente para entender:
Sua voz é uma ferramenta de trabalho e sobrevivência.
No caso dele, literalmente, inclusive.
Para você e eu, pode ser literal ou no sentido figurado!
Meu dia de trabalho na feira foi há mais de 20 anos e eu não imaginava nem de perto a importância da capacidade de chamar atenção e gerar interesse. Todo mundo na feira de rua vende mais ou menos as mesmas coisas, o que vai diferenciar é o preço e a chamada de atenção.
Você anda numa rua repleta de padrões visuais similares, mas um grito e uma placa te fisgam.
E pouco importa se você é introvertido, se não gosta de atenção ou se deseja apenas sossego: sem fazer bom uso da sua comunicação, poucas coisas novas vão surgir.
Sem o bom uso da nossa voz, como o mundo vai saber quem somos?
Por muitos meses eu tenho percebido pequenos aprendizados que moldaram meu caráter, só que nenhum foi tão contrastante:
O que finalmente aprendi com meu pai, através do exemplo e não da teoria, foi a não ter vergonha de fazer o que é necessário para ter bons resultados. Ainda que isso seja desconfortável.
Você já tem habilidades de sobra, por que sentir vergonha de falar sobre o que faz bem?
Abraços!