A Taylor Swift da filosofia e novas ideias velhas

Criar é reciclar

Semanas antes da pandemia começar eu estava em uma viagem de trabalho que terminava em Nashville. Terra do country, das asinhas de frango apimentadas e também da Taylor Swift. Ali conheci o conteúdo do Ryan Holiday enquanto ele falava para 6 mil pessoas.

Você provavelmente já viu algum livro do Ryan Holiday exposto em prateleiras por aí, o cara escreveu O Diário Estoico, Acredite, Estou Mentindo, O Ego é Seu Inimigo, O Obstáculo é o Caminho, entre outras obras.

4 anos depois, me encontro num cenário inesperado: conduzindo uma roda de perguntas e respostas com o autor em uma sala com menos de 50 pessoas.

Comentei com meu mano Ryan que gostei de quando ele comentou que a Taylor Swift fez um dos maiores lançamentos de álbum dos últimos anos reaproveitando músicas antigas, logo perguntei se ele não se considerava a Taylor Swift da filosofia por reaproveitar ideias que foram escritas há milhares de anos.

Rimos muito, acabou o papo.

Não podia perder a chance de fazer piada com o camarada!

De fato rimos, Ryan Holiday é uma figura carismática e fã de Iron Maiden, gosta de explorar ideias malucas.

Fazer algo novo não significa começar do zero, principalmente hoje em dia.

Sabe-se lá quantos reels, tweets, stories e tiktoks uma pessoa qualquer consome em poucas horas! Juntando isso ao fato de que nossa memória é bastante curta, acredite: 

Quase ninguém vai lembrar do que você ou alguma outra pessoa comunicou sobre determinado assunto. 

Ainda que essa pessoa lembre, ela consumiu aquele material em outro momento, outro contexto. É possível que nem tenha absorvido. Como diz Heráclito, ninguém entra duas vezes no mesmo rio

Às vezes eu cito algum pensador só pra parecer mais inteligente.

Quase tudo que é escrito por Ryan Holiday parte de textos criados por Marco Aurélio, Sêneca, Platão. Nada ali é 100% novo, mas ele entende como pegar materiais antigos e contextualizar com a vida moderna.

Outra questão relevante aqui é o fato de que a forma como esses pensadores escreviam é não muito linear ou simples. Você tem que estar com muita vontade!

Nossa Taylor Swift da filosofia se baseia no que já foi criado e desenvolve sua arte sobre aquela base, aí de repente vira moda ser estóico. 

Pois bem.

Muitas vezes você sofre para comunicar uma ideia ou criar seu próximo trabalho porque está pensando no zero absoluto. Isso é perder tempo e energia!

Ok, como fazer algo novo sem sofrer tanto e sem copiar alguém?

Sofrer é coisa de sertanejo e pagodeiro. Vou te entregar aqui um caminho prático em apenas quatro passos.

1. Priorize o problema a ser resolvido em vez da novidade

Sua chefe pediu um relatório que será apresentado a diretores que sempre ignoram os dados. Você colocou todos aqueles anos de Power Point em prática, pensou na transição mais absurda possível e… vai ser ignorado da mesma forma. Porque não seguiu uma lógica simples e óbvia: Por que os diretores não prestam atenção? 

Antes de criar qualquer coisa nova, escreva hipóteses sobre porque o que já existe não funciona.

Talvez porque os dados não informam nada relevante. Talvez os números sejam relevantes mas não exibidos de forma atrativa. Ou até que o design é belo, só que ninguém soube vender o número de forma impactante. 

Agora você já tem hipóteses: 

  • Estou mostrando os indicadores fracos;

  • O design não ajuda;

  • Eu não sei explicar a relevância daquela informação

Com meia hora no Youtube você encontra material suficiente de storytelling para aprender a chamar atenção e construir uma narrativa. Teste um elemento por vez até entender se o verdadeiro problema foi resolvido. 

Nós sofremos com a criatividade porque pensamos mais na criação do que na solução.

2. Te falta um banco para roubar.

Se o livro Roube Como Um Artista fosse uma religião, eu seria pastor. Ele aprofunda pra caramba na visão de criar com base em ideias já existentes.

Tatuadoras têm suas pastas de referências, arquitetos e designers têm seus favoritos no Pinterest. Escritores e copywriters possuem o tal do swipefile (um nome chique para "banco de referências"). 

Por que diabos você fica confiando tanto na memória em vez de um banco de ideias?

Seja lá qual for sua área de atuação, ignorar boas ideias já existentes é uma atitude tão idiota quanto pedir sushi em churrascaria. 

Sempre que encontrar um bom trabalho no seu segmento ou até mesmo algo que tenha leve correlação em outros nichos, salve. Seja nos favoritos, no Pinterest, no seu Google Drive. Revire este arquivo de tempos em tempos, mas principalmente quando está com o desafio de solucionar um problema. 

Sua memória pode te trair, não dependa tanto assim dela. Roube do seu próprio banco.

3. Fale em voz alta

Você já fez psicanálise? Gosto de brincar que psicanalistas têm o trabalho mais fácil, porque a pessoa chega lá, começa a falar o que ela passou a semana inteira pensando e ela mesma percebe a solução enquanto fala da vida. 100 anos atrás eles ainda receitavam cocaína.

Piadas à parte (é brincadeira viu turma do Freud), verbalizar uma ideia faz toda a diferença.

Quanto mais você fala sobre, mais sua mente se acostuma com aquilo. Você cria conexões, sumariza pensamentos, identifica lacunas. E quando fala com outras pessoas, ainda recebe feedbacks! Inclusive olha que bacana esse artigo da Harvard Business Review

Se expor é se preparar.

4. Ligue para sua/seu ex!

"Tá maluco, Cleiton?" Ok, para ser justo o tópico se chama "Revire seu passado", mas achei que aquele ali ficava mais legal!

Assim como é crucial ter o banco de ideias para roubar, faz muita diferença mexer nas suas gavetas de ideias passadas. Lá em cima eu comentei que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, certo? Eu aposto duas paçoquitas que se você olhar hoje para algo que fez alguns anos atrás, vai encontrar pelo menos um jeito de fazer melhor. Foi o que a Taylor Swift e o Ryan Holiday fizeram.

Todo livro pode ser atualizado com novas capas, novas notas do autor. Toda palestra pode ser renovada, uma das maiores modas no momento é revitalizar roupas vintage. 

Uma das pessoas que mais influenciou minha carreira nos últimos anos é a querida Gi Isquierdo. Já presenciei a Gi reaproveitar a base de um mesmo material cerca de 5 vezes. Em todas as vezes eu extraí algo novo.

Qual foi a coisa que você fez antigamente e que pode ser reaproveitada?

Sempre é possível ressignificar o que já existe. Pra que sofrer?

Por falar em Ryan Holiday e Austin Kleon:

Te vejo na próxima semana!