A moderação esconde a covardia

E impede as descobertas.

Um dos melhores episódios de Breaking Bad se chama Half Measures. Nele, um dos personagens, Mike, conta a história de quando era policial e atendia inúmeros chamados de violência doméstica. Chega a desenvolver bem o caso de quando pôde mudar algumas coisas, mas tomou meias medidas (half measures) e algo trágico aconteceu.

Ele então olha para Walter, o protagonista, e explica como as meias medidas são perigosas. O episódio seguinte é o Full Measures (medidas completas). Tão bom quanto o anterior, tem Walter White tomando decisões drásticas e, não necessariamente corretas, para manter seus planos vivos.

Jan Brewer on X: "So I stayed home tonight and watched Netflix. Caught up on Breaking Bad episode “Half Measures.” Ends with this great line: “The moral of the story is I

Embora a moderação seja a mãe da segurança, acredito que ela também seja a máscara da covardia. Quando você passa muito tempo escolhendo ações moderadas, se torna inimigo da coragem de arriscar. 

A criatividade não perdoa covardes. 

Isso me faz lembrar de um dos poucos poemas que gosto muito, A Tabacaria, de Álvaro de Campos.

Logo no começo um verso diz "tenho em mim todos os sonhos do mundo". Lindo. Um pouco mais adiante a coisa ganha mais peso:

"O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta"

Esse rapaz sabia escrever, hein?

Gosto de pensar que o texto completo aborda as meias medidas, a falta do salto de fé, o excesso de pensamento. Como eu disse, a moderação pode ser um disfarce da covardia. 

Muitas vezes percebo que assim como o personagem escrito por Álvaro de Campos, eu tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Comecei 2024 estabelecendo que ia pedalar no mínimo 5 mil km. Para que isso seja atingido eu preciso de pelo menos 5 horas semanais na bike, mais 4 horas semanais na academia. Já são 9 horas por semana. 

Uma das minhas maiores alegrias atuais é colocar a bicicleta na estrada e esquecer do mundo. Existe algo que me deixa em paz quando só preciso pensar em ritmo e respiração.

Também comecei o ano com o compromisso de gravar 4 a 8 podcasts por mês. Lá se vão outras horas. Como a carreira profissional não para de acontecer, fico ainda cerca de 80 dias por ano em viagens rotineiras de trabalho e também defini um objetivo profissional relacionado à palestras. 

Isso sem contar o compromisso que criei com um projeto pessoal de vídeo, estudos de outras áreas... Com tantas metas e sonhos andando juntos, falta a coragem de abrir mão de algo que gosto para apostar em algo ainda mais valioso, porque se dedicar a tudo é não ficar ótimo em nada: até o próprio autor Malcolm Gladwell comenta que criações originais são derivadas de certa obsessão. Até onde sei, moderação e obsessão andam em linhas opostas.  

O excesso de ideias obriga a moderar o esforço entre elas, e esforço moderado não é esforço! 

Tive há alguns dias a chance de entrevistar um dos melhores criadores que conheço, e ele comentou como leva até 2 semanas para fazer um ótimo vídeo de 18 minutos.

Se tempo é uma moeda e quero levar a sério uma criação que me deixa inquieto há meses, a conclusão vai ficando cada vez mais clara:

Alguma ideia ou meta precisa morrer para que outra cresça.

E é com isso em mente que decidi encerrar o ciclo desta newsletter para cuidar com mais carinho de uma criação que merece tempo e atenção.

Sim, eu sei que havia comentado nas últimas edições sobre os planos de conteúdo dela… Mas planos mudam. Minhas moedas de tempo precisam ser realocadas para um objetivo de longo prazo.

Até logo e obrigado pelos peixes!