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A filha do Didi, Van Gogh e o jogo do tigrinho
Última edição do ano e sem passas!
Dia desses eu infelizmente estava rolando o feed em vez de estudar e caí num vídeo da filha do Didi num papo motivacional para uma possível platéia fake (depois dos fakecasts, vem aí a nova tendência). Caso você não saiba, um dos grandes feitos da filha do Didi foi ter nascido na família do Didi.
No vídeo a moça diz que todo mundo tem as mesmas 24 horas, e algumas pessoas conseguem fazer e conquistar muito mais coisas nessas 24 horas porque simplesmente são mais produtivas. Nas entrelinhas, o significado que fica é: se você é um fodido na vida, é porque não quis ser produtivo.

Por coincidência, nos dias em que resolvi estudar, fiz umas anotações sobre percepção de fatos e construção de crenças (chique né?). O que foi dito na aula é que de acordo com o ambiente, família e condições que fomos criados, nossa personalidade cria diferentes formas de recebimento de um fato. Zero novidades aí, mas sempre bom lembrar.
Isso é curioso porque um fato é um fato, só que você e eu podemos interpretar ou viver aquele fato de formas completamente distintas e nós dois teremos certa parcela de razão.
Van Gogh arrancou a orelha e mandou de presente pra uma crush, sendo que ele podia ter pintado um nude. O fato é: ele mandou a orelha de arrasta pra cima. Para ele, foi um ato romântico. Para a pobre da pretendida, isso deve ter rendido um bom trauma.
Eu inclusive acho que foi daí que surgiu a expressão "não dê ouvidos pra ele".
Conversando com uma conhecida alguns dias atrás, falávamos sobre flexibilidade nos horários. Comentei que no meu caso, o trabalho presencial 3 vezes por semana é altamente viável. Eu levo 40 minutos de bicicleta. Já na realidade que ela vive, são 2h45 no trânsito para chegar ao trabalho, mais 2h30 para chegar em casa.
Enquanto ela está no ônibus, eu acordo, faço meia hora de academia, tomo café da manhã, pedalo, tomo um banho, me arrumo e começo a trabalhar.
Ela perde 4x mais tempo que eu num dia. Enquanto eu perderia 4 horas por semana, ela perderia, no mínimo, 15 horas. Perder tanto tempo semanalmente no trânsito só não é pior que passar o mesmo tempo ouvindo Legião Urbana.
De fato, todas as pessoas recebem 24 horas em um dia. No entanto, nem todo mundo tem um saldo de 24 horas no mesmo dia. Eu não posso dizer que sou mais produtivo do que minha conhecida. Porém, isso me faz lembrar que essa diferença de vivência e percepção dos fatos pode ser uma das maiores ferramentas possíveis na criação de soluções.
Murilo Gun já dizia em seu maravilhoso curso Reaprendizagem Criativa que divergência gera convergência!
Se duas ou mais pessoas com percepções diferentes entram num diálogo com os mesmos objetivos, a conversa pode começar bem aquecida.
O estresse vai estar ali, vai ter porrada, chilique, grito, mas se organizar direitinho… Todo mundo chega num denominador comum.

Porque debater (com a cabeça aberta) com pessoas de diferentes percepções pode te expor a outra visão dos fatos. Ou sobre as consequências dos fatos! Porque um fato é tipo um esquema de pirâmide, tem infinitas camadas que você não vê e um monte de gente de fodendo -ou não- em todas elas.
Dito isso, não é fácil criar conversas construtivas com alguém talvez fale coisas tão estúpidas que te fazem quase abrir mão do seu réu-primário. Mas você pode usar aquela opinião que pensa ser uma merda, como adubo.
Guardando a modéstia na gaveta por uns segundos…
Eu me considero muito bom em construir diálogos com qualquer tipo de pessoa. Acredito que essa foi uma das top 3 habilidades conquistadas que guiam minha carreira.
Apesar de discordar da Livia Aragão, adoraria tomar um café com ela.
Logo, como transformar divergência em solução? Como extrair boas ideias de onde tem grande risco de só sair chorume?
Primeiro comece dando um socão na pess… Calma aí, o primeiro passo não é bem esse.
Passo 1: Nem toda questão é sobre você. Na verdade, quase nada é sobre você
Entenda que não necessariamente aquela ideia da outra pessoa é um ataque às suas opiniões e métodos. Existe risco de ser? Sim, mas nem sempre é. Com isso em mente, não entre na conversa pensando em mudar a opinião do outro ou sobre o outro. Entre pensando em como encaixar as engrenagens e sabendo que, se ideias divergentes forem somadas, vai ser muito mais fácil cobrir os pontos falhos de ambas.
Passo 2: Se aproveite da divergência
Considerando que você sabe os posicionamentos da pessoa sobre aquele fato, dê espaço para que ela fale sobre aquilo. Por quais razões ela acredita que a visão dela faz sentido, como ela resolveria o problema X se tivesse a oportunidade. Faça as perguntas não em tom cínico, mas com curiosidade. Existe embasamento para isso: as pessoas adoram falar sobre as opiniões e assuntos preferidos delas.
Aqui você tem a chance de entender as raízes do pensamento do outro lado.
Passo 3: Explore a vulnerabilidade
Após pedir o posicionamento real do indivíduo, você provavelmente terá recebido um pouco de confiança. Agora é explorar uma camada além. Pergunte o que essa pessoa enxerga como desafios ou pontos críticos da visão que ela tem, e como eles talvez fossem solucionados.
Comente inclusive seus pontos vulneráveis também! Mostre que o seu jeito de resolver problemas também tem lá suas limitações.
Não julgue ou diminua seu "oponente" durante os passos acima. Uma das melhores práticas que você pode seguir na sua carreira, é manter conversas francas com gente que pensa diferente de você.
Essas conversas derrubam paredes invisíveis que te prendem num falso sistema de previsibilidade.
Conversas desconfortáveis constroem visões amplas para criar algo novo, fazer negociações ou gerenciar projetos.
E por falar em conversas desconfortáveis, talvez alguma pessoa do seu convívio tenha entrado em joguinhos de azar durante 2023. Influencers contratados por plataformas de apostas chegam a receber R$ 30 mil por cada publi, além das comissões geradas pelas perdas dos jogadores atraídos por eles.
Com uma reportagem do Fantástico indo ao ar ontem para expor o esquema ilegal, algumas das figuras envolvidas na divulgação dos jogos foram voando postar stories sobre os jogos. Um dos influenciadores chegou a questionar: "Se eu disser pule de um penhasco, você vai pular?".
Pois bem. Em pleno 2023 uma pessoa que vive de vender influência esquece o que "influência" quer dizer. São tempos malucos!
Chegamos ao final de 2023 e também ao final das edições d'O Arco de Apolo deste ano.
Escrever para você foi uma experiência maravilhosa e quero te dizer uma palavra: Obrigado!

Conseguimos manter taxas de abertura acima dos 40% de média, recebi ótimos feedbacks e, graças ao fato de você abrir meus e-mails, pude exercitar minha criatividade, expor ideias e criar diálogos inesquecíveis com pessoas que admiro e nem sabia que me assinavam.
Após bons meses de experimentação, quero iniciar uma linha de raciocínio mais focada para os próximos 12 meses, espero que a ideia seja útil para você.
Nos vemos novamente em 2024. Espero que você tenha ótimos dias pela frente :)