A curiosidade é minha melhor amiga

Bateu a nostalgia

O dia das crianças está chegando e por conta dele, me lembrei de uma coisa que minha mãe sempre conta nas rodas de conversa com a família.

Diz ela, que quando eu tinha uns 3 ou 4 anos, ela me deixou brincando com uma daquelas bicicletinhas infantis e, quando voltou, eu tinha desmontado uma boa parte da bicicleta.

Sendo bem honesto, eu não faço a menor ideia se esse caso é totalmente verdadeiro ou não, mas gosto de pensar que sim. Porque se eu desconstruir toda a jornada profissional do meu primeiro dia de trabalho em uma oficina mecânica até hoje, como especialista em desenvolvimento de mercado, só posso afirmar que a curiosidade é a maior aliada que tive durante toda a carreira.

Em algum momento na adolescência, me apaixonei por automobilismo (até sei o momento exato mas não sei se fica tão bonito dizer que o filme Velozes & Furiosos me fez querer estudar isso) e decidi que seria mecânico de carros de corrida. Ganhei bolsa em uma escola filiada ao Senai, fiz certificações em funcionamento de motores, injeção eletrônica, metrologia etc.

E achava que meu futuro seria aquilo!

Eu era um péssimo ajudante de mecânico! Só que ao mesmo tempo, adorava gastar umas horas na internet, tanto em blogs de automobilismo quanto de humor. Quando menos imaginei, estava com meu blog Shock Motors no ar, ali em 2008. Daí me veio um pensamento: “Será que não dá pra ganhar dinheiro com isso?”. Foi aí que começou a minha busca interminável por fontes de renda com conteúdo. 

Quando menos imaginei, o blog já contava com 3 mil acessos diários e atingiu 1 milhão de visitantes em pouco mais de um ano.

O blog dava uns trocados, mas aquilo não me sustentava. Eu já tinha desistido de ser mecânico e precisava continuar trabalhando. Testei mil trabalhos e a ideia de trabalhar com internet ainda não me largava. O trabalho como analista backoffice em uma empresa de marketing me fazia aprender sobre Excel, argumentos de vendas e análise de números. “Se dá para metrificar uma tentativa de venda, dá pra metrificar um leitor de blog”. Esse pensamento me fez passar muitas noites lendo artigos do Fabio Ricotta, pesquisando sobre Google Analytics e começando a levar para o blog as análises que aprendia sendo analista na finada Digital Go.

Aprender a analisar tráfego e transformar isso em conteúdo novo ajudou absurdamente a encontrar oportunidades inimagináveis como conhecer alguns ídolos meus lá em 2010: Thiago Mobilon, Lia Camargo, Jovem Nerd e Azaghal:

Ver aquele universo de blogueiros profissionais de perto explodiu minha cabeça.

Ainda em 2010, uma rede europeia de blogs chegou ao Brasil buscando editores. Na época eu escrevia de 10 a 30 artigos por mês para o Motorpasión em troca de alguns euros. 

Não levou tanto tempo assim até os freelas em agências de publicidade aparecerem, até que um belo dia estava eu, como Analista de Métricas na MPP Interativa. Na Interativa eu cuidada de todos os relatórios de portais de clientes como Peugeot, Yamaha, Cosac Naify, quebrava uns galhos fazendo fotos de produtos, cobertura de eventos e aí entendia que o que funcionava para a agência deveria funcionar também fora dela, me tornei ainda mais curioso pela fotografia e comecei a cobrir festas por fora do trabalho para aprender a fotografar melhor. 

Em 2011 a Renault me levou até a Argentina por quase uma semana para cobrir o lançamento do Renault Duster no Salão do Automóvel de Buenos Aires. Aquele foi o maior gosto de “sucesso” que tive até então. Serviu de gatilho para estudar mais e fazer mais freelas. A ponto de, ironicamente, entender que, para estudar mais, eu precisaria abandonar a faculdade de fotografia.

Como eu comentei, a fotografia mudou tudo. Porque ela foi e ainda é uma enorme paixão. Um bom fotógrafo precisa treinar proporções, ângulos, se adaptar ao clima, prever o momento certo de clicar. Era emocionante. Mas eu também não me achava tão bom assim.

Só que aí, por que não continuar tentando? A segunda ironia envolvendo a fotografia foi que eu ficava fazendo tudo isso enquanto trabalhava na agência. E se você já se dividiu entre atividades, provavelmente perdeu rendimento em uma delas. Investir em uma paixão estava me afastando do que permitia que eu me aprofundasse naquela paixão. Um dia o dono da agência me puxou num canto e deu um feedback que doeu na alma, mas foi valioso. Sabe aquele lance de dar dois passos para trás? 

A conversa me fez aprender que no longo prazo, a coisa que faria minha carreira andar seria o aprofundamento em dados, estratégia e marketing.

Abandonei minha principal paixão para focar em web analytics. De novo. A vida é engraçada. Fiz cursos de planejamento digital, de mídias sociais, de Google Analytics, tudo para pegar a área de métricas e moldar uma armadura ao redor dela. Menos de um ano após o feedback do meu chefe, eu estava tão imerso no mundo de métricas que tive a oportunidade de ser contratado como Analista de Planejamento de Métricas na Plan B.

Eu chorava de alegria, porque a Plan B era referência em campanhas criativas e me fez mudar para BH. Era minha chance de usar as métricas como isca para o restante do marketing, o que inclui a fotografia. O que eu não imaginava nem de longe era que aquela agência seria o alicerce dos meus próximos anos. Era lindo ver meus colegas criando campanhas e executando ideias, seguindo métodos altamente práticos para transformar curiosidade e criatividade em resultados.

Cheguei na Plan B focado apenas em criar relatórios e analisar campanhas de 10 ou 11 clientes, e depois de 2 anos eu já tinha participado de planejamentos e projetos em mais áreas do que jamais imaginaria. No final de 2014, alguns amigos começaram a trabalhar em uma plataforma até então desconhecida. Um deles me disse que precisavam de alguém para organizar as métricas e indicadores de performance.

Lembro até hoje que cheguei para um bate papo com JP, Mateus Bicalho e Bernardo Porto numa quarta de noite. Eles me falaram sobre o mercao de infoprodutos, sobre todos os planos de expansão, números de mercado.

E naquela salinha minúscula, na rua Cláudio Manoel, fiquei pensando: ou eles são muito ambiciosos e completamente malucos, ou são muito ambiciosos e completamente visionários.

Fiquei curioso. Comprei a aposta e o tempo provou que era a segunda hipótese. Entrei na Hotmart como Growth Hacker. Nosso trabalho era todo dia chegar na empresa e trabalhar em formas de tornar nosso resultado 1% melhor a cada dia. O Bernardo Porto me encorajava a desenvolver um senso de autonomia.

Me ajudou a incrementar meus conhecimentos sobre estatística e algo que eu nem sonhava, passou a existir: nós criamos nossas próprias metodologias de Teste A/B com amostragem dinâmica, testamos melhorias de checkout em mais de 200 variáveis simultâneas, encontramos clientes que abriam possibilidades de testar novas hipóteses. Viramos até case de sucesso entre outras empresas da época.

Então, entre inúmeras conversas internas, surgia a necessidade de um time focado em Sucesso do Cliente. Abracei a causa. Estudei sobre SaaS, atendimento, otimização de conversão, copywriting, lançamentos de produtos, fiz parte do primeiro time de CS da Hotmart. Nós éramos 5 pessoas atendendo 80 contas. O que era o CS se tornou a vertical de Revenue and Sales e conta com mais de 240 pessoas espalhadas pelo mundo, atuando diretamente com milhares de creators.

Ainda naquela época a temática de CS e otimização de resultados era tão nova que não faltavam convites para falar em público. E lá vamos nós para outra área de estudos. A primeira experiência marcante foi apresentar o FIRE 2015 para 1.000 pessoas.

Quanto mais eu precisava dar palestras, atender clientes, participar de negociações, mais eu me apaixonava pela ideia de ajudar empreendedores a terem mais resultados em seus negócios.

Eu era só um cara curioso que 7 anos antes começou a escrever blogs e agora atuava como mestre de cerimônias, consultor de negócios, gerente de contas e até comercial.

Também por curiosidade e oportunidade, fui parar no primeiro time de comunidade e educação na empresa. Rodamos mais de 7 capitais em 5 países, demos mais de 150 aulas ao vivo, tivemos alunos que se tornaram grandes nomes de mercado. Fiz amizades e parcerias comerciais memoráveis, e os projetos de educação foram uma fagulha interessante que me despertaram um enorme desejo em aprender a ensinar. 

Durante o período intenso nessa atividade, cheguei ao cargo que eu mais desejava ter: Especialista em Marketing. E foi emocionante isso ter acontecido no mesmo ano em que eu completei meus 30 anos. Era uma sensação de que a vida tinha dado certo, finalmente.

Ter sido reconhecido como especialista foi a cereja do bolo na carreira de um cara naturalmente insatisfeito, que nunca se identificou como líder.

Era incrível. Tão incrível que eu não sabia o meu próximo passo.Senti um desejo de sanar outras curiosidades. Como eu podia otimizar, ensinar e dar consultoria sobre algo que eu não vivia na pele? Bateu um desejo de saber se eu só sabia ensinar, ou se também sabia fazer marketing do zero até o resultado mais impactante possível. Esse desejo foi tão forte, que durante a pandemia, decidi me desligar da Hotmart para seguir no mercado, dando consultorias e treinamentos.

Empreendi. Ganhei e perdi dinheiro, tive que estudar sobre impostos, contratos, negociação de serviços, como demitir e contratar, como lidar com a falta de previsibilidade etc. Foram 18 meses intensos, que valeram como 5 anos de carreira. Eu consegui sanar minha síndrome de impostor e começava a planejar os próximos passos, quando recebi mensagem do meu amigo Alexandre Abramo perguntando se eu não topava voltar, e no time dele.

Tremi na base. Porque a vida estava boa, mas eu nunca sonhei em empreender. O que eu gostava e o que fez minha carreira ser boa era sempre a chance de trabalhar com gente foda.

De lá pra cá nossa curiosidade fez a gente estar no dia a dia, atuando com desenvolvimento de negócios de creators em todo o mundo. Só em 2022 já fomos assistidos mais de 1 milhão de vezes, nosso time esteve presente fisicamente com milhares de empreendedores. Apresentamos trabalhos no Brasil, EUA, México, Chile Colombia… A lista é grande.

Comentei que mais tarde eu entenderia a causa da minha constante insatisfação. 

O que eu sentia não era insatisfação. Era o incômodo de não entender como fazer um problema ser resolvido. O que descobri nos últimos 14 anos é que poucos combustíveis podem ser tão potentes e perenes quanto a curiosidade. A curiosidade é uma coceira no cérebro que não pode ser ignorada. É como se a curiosidade causasse aquele espírito de descoberta que é tão natural nas crianças, e que muitas vezes deixamos de lado na vida adulta.

A curiosidade leva a gente longe.

Eu espero que seu dia das crianças seja cheio de uma das coisas que elas têm de mais incrível: a curiosidade infinita.

(Foto aleatória que tirei ontem, no finalzinho das minhas férias)