7 passos para falar de temas chatos sem ser chato

Eu diria que o passo 6 é o meu preferido! Mas também é o que demanda mais atenção.

O palco é como um filme da Disney. Nele você pode tanto explorar suas maiores fantasias quanto se deparar com traumas e medos. E não é tão difícil assim uma bela apresentação que parece um conto de fadas se transformar na área sombria que o Simba é orientado a nunca se aproximar.

Para a sorte de toda pessoa que precisa fazer apresentações, seja em palcos, salas de reunião ou chamadas de Zoom, existem formas de escapar dos perigos. 

Acordei outro dia com a ideia de montar uma palestra 100% nova sobre Cohort e LTV (Lifetime Value). Uhull. Temas maravilhosos. Empolgantes. Só que não. Fiquei dias pensando no contexto perfeito, quando de repente surgiu um evento para 500 pessoas. E o melhor: eu poderia definir a temática da minha palestra.

Maravilha! Agora eu só precisava arrumar uma forma de preencher 40 minutos de palco com percentuais de recompra, potenciais de faturamento, cálculos de médias conservadoras e não deixar ninguém dormir. Como pegar um Fiat Uno e fazer ele ser tão atrativo quanto um Mini Cooper?

Se tem algo que tanto a andragogia quanto a escrita criativa ensinam bem, é que praticamente todo mundo ama metáforas! 

Voltando à ideia de falar sobre LTV, pensei: Lifetime Value nada mais é que você pegar um cliente que vale X e transforma-lo em um cliente que vale mais de X. Aumentar o valor de algo ou alguém que já existe. Com isso em um post-it e muito café na cabeça, validei a ideia de tema da palestra com o Gabriel Lages e a Thalita Gaku:

Duas semanas depois eu estava entregando o que acredito ter sido um dos meus melhores trabalhos em muito tempo. 

O tema foi aquele da capa do artigo:

"Como ser um Alquimista dos Negócios Digitais - Um olhar sobre a ciência que transformava qualquer metal em ouro"

Abri com essa premissa e em seguida já fiz o disclaimer: "a grande diferença aqui é que no marketing nós realmente conseguimos".

Mas isso não importa tanto agora. O que importa é: Como você pode fazer o mesmo? Como você pode pegar um assunto chato e transformar em ouro?

Bora lá:

1. Foco na ideia a ser vendida ou passada

Qualquer apresentação, pitch ou aula deve focar em entregar UMA conclusão. Uma ideia, uma ação, um caminho. Eu queria que as pessoas saíssem entendendo que se atingissem um percentual médio de recompra, era possível faturar quase 30% mais.

Sua ideia não pode ser detalhada ou profunda demais. Ela precisa gerar curiosidade e desejo. Empreendedores desejam mais faturamento e mais clientes fiéis. Eles desejam saber o "como".

2. Quebre em linhas simples todos os fatos sobre esta ideia

Como citei no texto, LTV é um conceito simples. Eu tinha listado mais uns 8 fatos sobre o indicador. O que você pode fazer é buscar por explicações de outros experts e até do Chat GPT.

As primeiras características listadas sempre são as mais fracas. Depois de aprofundar um pouco, você começa a identificar quais abordagens são mais claras e simples. Foque seu esforço nessas que trazem clareza.

3. Busque por referências que casem com alguns destes fatos

Quais filmes, livros, frases, discursos, séries, seja lá o que for que você já viu em algum lugar e citam algo relativamente próximo do conceito a ser explorado? Por ter lido Paulo Coelho eu sabia que alquimistas transformavam chumbo em ouro.  Mas se eu não soubesse?

Eu entraria no Google buscaria por “frases sobre transformação”, “frases sobre LTV”, “falas sobre metamorfose” (por causa do lance de transformar). E por aí vai.

Essas falas e frases levam a filmes, livros, materiais que trazem novas ideias.

4. Comece a estressar as correlações 

Ok, você encontrou uma metáfora. Agora ela precisa ser explorada sob diversos ângulos, também precisa descer a pelo menos mais dois ou três níveis de correlação! Como eu sabia que a alquimia é baseada no uso dos 4 elementos da natureza, troquei por 4 elementos dos negócios. E segui estressando a ideia.

A boa metáfora não é apenas um elemento de storytelling. É uma ferramenta de aprendizado. Tanto crianças quanto adultos tendem a reter melhor uma informação sob a narrativa de história contada. É assim nas músicas, livros, filmes, até na Bíblia. Portanto vale a pena gastar tempo nessa parte, até todas as correlações fazerem sentido e serem simples!

5. Escreva uma linha-mestra e não desvie dela

Essa dica vem diretamente do livro Ted Talks. É muito fácil se empolgar ou se distrair durante a narrativa, por isso vem a importância de ter estressado as correlações e ter certeza que todo exemplo que você tiver não vai desviar do caminho planejado! 

Quanto menos você desvia do tema central, mais as pessoas absorvem o conteúdo e mais você desenvolve as habilidades de explorar aquela abordagem.

Seja fiel ao planejamento da sua narrativa.

6. Misture exemplos reais com exemplos lúdicos, mas sem exagerar

Enquanto as metáforas são maravilhosas ferramentas, um dos pilares da andragogia prega que pessoas adultas precisam de aplicabilidade no mundo real para absorver um conhecimento. Portanto, meça bem o equilíbrio entre os dois tipos de exemplo, mas jamais use apenas a parte lúdica ou somente a vida real. 

Se você observar grande parte dos discursos motivacionais, dos filmes inspiradores e até treinamentos de assuntos complexos, não é difícil encontrar uma narrativa que compara os desafios "reais" com os desafios do esporte. Muitas vezes, do futebol. Porque fica fácil criar a correlação e entender como aquilo funciona.

Só o exemplo lúdico engaja mas não tangibiliza. Só o exemplo real tangibiliza mas não brilha os olhos. 

No caso da palestra sobre LTV, todo novo tópico tinha uma abordagem lúdica e desconstrução técnica. Pode ser um bom caminho.

7. Leia tudo em voz alta e repita até fazer sentido

Você pode imaginar o prato mais complexo que seria capaz de cozinhar. As cores, texturas, apresentação, a bebida que harmoniza com ele. Nada disso será considerado bom enquanto não for provado. Portanto, não existe apresentação criativa sem prática. 

É necessário degustar cada tópico, ter certeza que existem momentos de respiro, momentos de intensidade, fatores de curiosidade, que existe um fluxo de sentimentos conforme o assunto se desenvolve. 

A dica prática aqui é não apenas ler em voz alta e editar o que for necessário, mas também gravar seus ensaios e assisti-los. Comediantes sempre gravam os próprios testes de piada, dançarinas sempre estão usando um espelho. É preciso ensaiar, aceitar que melhorias são necessárias, e testar de novo, até atingir um ponto satisfatório!

Espero que o texto nada curto de hoje tenha gerado clareza para suas próximas apresentações. Descobrir novas formas de abordar suas ideias pode fazer grande diferença na carreira, nos negócios e até nos hobbies. 

Dê uma chance ao risco de se divertir :)